Postado em 2 de setembro de 2026 por sn-admin

Workshop promovido pelo CAU/BR coloca em discussão temas como autoria, transparência com clientes, proteção de dados e responsabilidade sobre projetos desenvolvidos com apoio de IA
A inteligência artificial já está presente em diferentes etapas do trabalho de arquitetos e escritórios de projetos. Ferramentas capazes de gerar imagens, organizar informações, apoiar estudos preliminares e acelerar atividades que antes exigiam horas de trabalho começam a integrar o fluxo de produção do setor.
Com o avanço dessa utilização, entretanto, a discussão começa a ultrapassar os ganhos de produtividade e as possibilidades tecnológicas. Questões relacionadas à ética, responsabilidade profissional, autoria, transparência e proteção de informações passam a ocupar espaço no debate sobre o futuro da profissão.
O tema esteve no centro de um workshop realizado nos dias 27 e 28 de agosto, em Manaus, pela Comissão de Ética e Disciplina do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CED-CAU/BR).
O encontro reuniu profissionais, estudantes, conselheiros e representantes dos Conselhos de Arquitetura e Urbanismo dos estados para discutir as implicações da inteligência artificial na arquitetura e no urbanismo.
A iniciativa sinaliza uma nova etapa na relação entre a profissão e a tecnologia. Se inicialmente grande parte das discussões estava concentrada na capacidade das ferramentas de gerar imagens ou auxiliar no desenvolvimento de projetos, agora o debate começa a abordar as consequências de sua utilização dentro da atividade profissional.
Responsabilidade continua sendo do profissional
Um dos principais pontos relacionados ao uso da inteligência artificial na arquitetura é a responsabilidade sobre o conteúdo produzido com auxílio dessas ferramentas.
Sistemas de IA podem apresentar alternativas, produzir imagens, organizar referências e auxiliar na análise de informações. No entanto, o resultado gerado ainda precisa ser avaliado e validado por um profissional.
Essa distinção é especialmente relevante em atividades técnicas.
Um projeto de arquitetura envolve decisões relacionadas a legislação, acessibilidade, segurança, conforto, viabilidade construtiva, custos e necessidades específicas de cada cliente. Uma resposta produzida por inteligência artificial pode parecer tecnicamente adequada e, ainda assim, apresentar erros, informações desatualizadas ou soluções incompatíveis com determinado contexto.
Por esse motivo, a incorporação da IA ao processo de projeto não elimina a necessidade de supervisão humana.
Na prática, a tecnologia pode participar do desenvolvimento do trabalho, mas a responsabilidade técnica e profissional permanece vinculada às pessoas responsáveis pelo projeto.
Transparência com o cliente entra na discussão
Outro ponto abordado durante o workshop foi a transparência sobre a utilização da inteligência artificial.
A presidente do CAU/BR, Patrícia Sarquis Herden, citou práticas internacionais em que profissionais consultam seus clientes sobre a utilização de IA durante o desenvolvimento dos projetos.
A discussão levanta uma questão que tende a se tornar mais frequente nos escritórios brasileiros: o cliente deve ser informado quando ferramentas de inteligência artificial participam da elaboração de um projeto?
O assunto envolve não apenas transparência, mas também expectativas sobre autoria e sobre a forma como o serviço contratado será executado.
À medida que a IA passa a participar de etapas mais relevantes do processo criativo e técnico, escritórios poderão precisar estabelecer critérios mais claros sobre quando e como essa utilização deve ser comunicada.
Proteção de dados também exige atenção
Além das questões relacionadas à autoria e responsabilidade, o uso de inteligência artificial traz preocupações sobre a proteção das informações utilizadas durante o processo.
Arquitetos e empresas de projetos trabalham diariamente com documentos que podem conter informações estratégicas ou confidenciais, como plantas, memoriais, contratos, orçamentos, especificações técnicas, propostas comerciais e dados de clientes.
Ao utilizar plataformas públicas de inteligência artificial, é importante compreender quais informações estão sendo enviadas, como esses dados são processados e quais são as políticas de armazenamento e utilização adotadas pelo fornecedor da tecnologia.
Esse cenário também ajuda a ampliar a discussão sobre a diferença entre ferramentas públicas e generalistas de IA e ambientes privados desenvolvidos ou configurados para trabalhar com dados e conhecimentos corporativos sob regras específicas de acesso, segurança e governança.
Para empresas do mercado de arquitetura, engenharia e construção, a escolha da tecnologia tende, portanto, a envolver não apenas desempenho, mas também critérios relacionados à segurança da informação.
Escritórios começam a precisar de políticas internas para IA
A velocidade de adoção da inteligência artificial representa outro desafio.
Novas ferramentas e funcionalidades chegam ao mercado em ritmo acelerado, enquanto normas profissionais, legislações e procedimentos internos das empresas precisam de mais tempo para acompanhar essas transformações.
Nesse contexto, escritórios podem antecipar parte das discussões criando políticas internas para utilização de inteligência artificial.
Essas diretrizes podem estabelecer, por exemplo, quais ferramentas são autorizadas pela empresa, quais tipos de documentos podem ser enviados para sistemas externos, quais informações são consideradas confidenciais e quais etapas do trabalho obrigatoriamente exigem validação humana.
Também podem definir procedimentos de rastreabilidade, permitindo identificar quando uma ferramenta de IA participou de determinado processo e quem realizou a revisão do resultado.
A adoção dessas práticas tende a ganhar importância principalmente em empresas nas quais diferentes profissionais utilizam ferramentas de inteligência artificial diariamente.
Sem regras claras, cada colaborador pode adotar critérios diferentes para inserir documentos, gerar conteúdos ou utilizar resultados produzidos pelos sistemas.
CAU/BR prepara orientação sobre o tema
As discussões realizadas em Manaus devem contribuir para a elaboração de um guia orientativo sobre as implicações éticas da inteligência artificial na arquitetura e no urbanismo.
A iniciativa demonstra que a discussão institucional sobre IA começa a acompanhar a rápida incorporação dessas tecnologias ao mercado profissional.
Ainda existem questões que deverão amadurecer nos próximos anos, especialmente em temas como autoria, propriedade intelectual, transparência, confidencialidade e limites para utilização de conteúdos produzidos por sistemas automatizados.
Para os escritórios, entretanto, o debate já tem consequências práticas.
A inteligência artificial tende a continuar avançando como ferramenta de produtividade e apoio ao desenvolvimento de projetos. O desafio passa a ser incorporá-la aos processos sem perder elementos fundamentais da atividade profissional: controle sobre as informações, capacidade de validação, transparência e responsabilidade técnica.
A tecnologia pode assumir uma parcela cada vez maior das tarefas executadas durante um projeto.
Mas, pelo menos no cenário atual, a decisão sobre utilizar seus resultados — e a responsabilidade por eles — continua sendo humana.
Fonte: CAU BR
Fonte: CAU BR

