“A transdisciplinaridade é essencial à arquitetura”: entrevista com Vão

Postado em 14 de dezembro de 2020 por

Formado por Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero, Vão é um escritório transdiciplinar de arquitetura fundado em 2013 com sede em São Paulo. Explorando temáticas e escalas tão diversas quanto instalações artísticas e arquiteturas residenciais, passando equipamentos culturais, estabelecimentos comerciais e escritórios, Vão trabalha num território entre campos, buscando diluir, ou tensionar, as fronteiras disciplinares com o intuito de enriquecer a reflexão e a prática arquitetônica.

Tivemos, recentemente, a oportunidades de conversar com os sócios sobre alguns dos temas que estruturam a abordagem do escritório e, também, aprofundar em alguns dos projetos mais conhecidos do grupo. Leia a entrevista a seguir.

Romullo Baratto (ArchDaily): No site do escritório há uma descrição do verbete vão, contextualizado à arquitetura. Poderiam comentar um pouco sobre a escolha deste nome?

Vão Arquitetura: Como é comum a todos os nascimentos, o nome não foi uma decisão tomada de súbito, mas um processo de muita conversa entre os criadores envolvidos. No caso do Vão o nome não antecedeu o nascimento, pois o escritório já operava de forma embrionária há algum tempo, quando a necessidade de nomear a produção tornou-se mais latente.

Desde o princípio, dois pontos eram compartilhados por todos: 1) que a produção não fosse representada por nomes próprios; 2) que o verbete estivesse de alguma forma vinculado ao universo arquitetônico sem estar restrito à ele, uma vez que naquele momento a transdisciplinaridade e a relação com as artes plásticas já eram questões presentes.

Vão. Foto © Javier Augustin Rojas

Vão. Foto © Javier Augustin Rojas

Foram muitas reflexões, buscas randômicas em dicionários e anotações até aparecer a palavra vão. Ela não foi acatada de imediato, mas, com passar dos dias, as interpretações surgidas dela geraram entusiasmo entre nós. Para arquitetura o vão é uma conquista estrutural entre apoios na cota zero, ou ainda, um hiato construtivo no interior de uma edificação.

O vão é um entre-coisas; o lugar das possibilidades presente nos mais importantes espaços da cidade de São Paulo: MASP, MUBE, FAU-USP, CCSP e o próprio SESC Pompeia.

Para além disso, vão é uma conjugação do verbo ir (eles vão) que representa nosso desejo em construir um percurso coletivo. O verbete pode ser lido também dentro da expressão “em vão”, utilizada para designar um fracasso, algo que não foi concretizado como o planejado. O abandono de projetos desenvolvidos por razões externas e alheias ao nosso controle é uma situação bastante corriqueira no ofício arquitetônico mas, para nós, “em vão” significa na verdade uma experimentação valiosa que, apesar de não realizada no presente, muito provavelmente se manifestará novamente, de uma forma ou de outra, no futuro.

Sete anos após a escolha do nome e da criação do escritório, Guilherme Wisnik, no texto da exposição Infinito Vão – 90 anos da arquitetura brasileira, realizada em Portugal e agora recebida pelo Sesc 24 de Maio, rememorou o versos de Gil em Drão: “O verdadeiro amor é vão / Estende-se, infinito / Imenso monolito / Nossa arquitetura”.

RB: Poderiam falar um pouco sobre a estrutura do escritório e as colaborações com que fazem com artistas?

VA: O Vão tem uma estrutura pequena e uma coisa sobre a qual sempre conversamos é o desejo de não aumentá-la demasiadamente, a ponto de perdermos o contato próximo com o processo projetual.

Somos contra soluções automatizadas: toda a produção é muito pensada, testada e debatida entre todos. Por essa razão nos agradam as parcerias com colegas-amigos que eventualmente entram na coautoria de projetos específicos.

As colaborações com os artistas plásticos inserem-se também nesse espaço-entre. É difícil por vezes explicar o nosso papel porque não somos os assistentes da execução, as pessoas que montam o trabalho. Normalmente os artistas chegam até nós por causa de uma encomenda feita por uma galeria, um museu ou bienal. Então, a partir do lugar e de algumas ideias preliminares, seguimos, como sempre, para os testes e as trocas promovidas pelos debates; até chegarmos nas resoluções espaciais, conceituais e técnicas. O processo de cada obra de arte, como no projeto arquitetônico, é único e a forma como operamos varia também de acordo com o processo do artista. Dependendo da situação, trabalhamos com desenhos, maquetes, modelos virtuais ou protótipos em escala 1:1.

O que vemos, o que nos olha | SESC 24 de Maio, 12ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, 2019. Foto © André Scarpa

O que vemos, o que nos olha | SESC 24 de Maio, 12ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, 2019. Foto © André Scarpa

Antes da formação do Vão já havíamos sido assistentes de Héctor Zamora e Cinthia Marcelle, e depois estendemos a experiência a outros artistas, sendo Lais Myhrra, Sara Ramo e Marilá Dardot algumas das parcerias mais recorrentes.

Desenvolvimento do trabalho Chão de Caça (57ª Bienal de Veneza), da artista Cinthia Marcelle, 2017. Foto © Vão

Desenvolvimento do trabalho Chão de Caça (57ª Bienal de Veneza), da artista Cinthia Marcelle, 2017. Foto © Vão

Em um certo momento começamos a ter vontade de nos aventurar em nossos próprios trabalhos instalativos, por meio de editais de concursos, como por exemplo o trabalho Subsolanus, ou a convite de curadores, como é o caso das obras O que vemos o que nos olha e Lastro. De toda forma, mantemos até hoje a prática das colaborações com artistas por acreditar na potência desta troca para todos.

RB: Vocês trabalham com projetos de arquitetura e instalações artísticas e parece haver muitas aproximações e sobreposições entre os trabalhos desenvolvidos em cada uma destas áreas. De que forma estas se complementam ou tensionam?

VA: A influência da arte contemporânea em nosso trabalho não é uma questão meramente estética ou de linguagem. O aprendizado fundamental trazido por ela foi a entrega conceitual às obras, uma abertura interpretativa, que suscita questões análogas desveladas em outros processos, outras formas de pensar de uma natureza que não a da nossa formação.

Certa vez em uma entrevista, Roberto Burle Marx disse que odiava a ideia de que o paisagista só deva conhecer plantas e que para o exercício da profissão era fundamental compreender Miró, Picasso, Léger, Delaunay, entre outros. Ali ele estava nos falando sobre a importância de não circunscrever, sobre aprender a observar, absorver, interpretar e transcender.

Nós três mantemos um hábito quase rotineiro de trazer pesquisas e interesses individuais para torná-los coletivos. Falamos muito de arquitetura, mas não só. Nossas conversas giram em torno da música, do cinema, do teatro, e, evidentemente, das artes plásticas; debatemos textos, notícias do dia, e de forma muito natural, vamos construindo um arsenal poético e político que constitui o universo que chamamos de vão.

Acreditamos fortemente que as fronteiras entre as manifestações criativas não existam, ou, pelo menos, que não são tão delimitadas como pode-se pensar.

RB: Um dos projetos de maior alcance do escritório é a Sede para uma Fábrica de Blocos, construída com os mesmos blocos de concreto produzidos por aquela fábrica. Com 75 metros quadrados de área útil, chama a atenção a área ocupada pelas paredes, também 75m2. Poderiam falar um pouco sobre este projeto e as decisões tomadas em relação ao espaço e materialidade da obra?

VA: Sede da Fábrica de Blocos é um bom exemplo da abertura para novas formas de pensar trazida pelo contato com as artes plásticas. A fábrica havia sido recém-inaugurada na cidade de Avaré e por conta de nossos projetos lá os sócios nos contataram.

Apresentamos um projeto de construção convencional com blocos aparentes aos clientes, que por sua vez disseram: “Muito obrigado, nós adoramos, mas não temos orçamento para isso, não queremos investir em um terreno alugado e não podemos esperar o tempo da obra. Vamos comprar um container”.

Sede para uma Fábrica de Blocos | Avaré, 2016. Foto © Rafaela Netto

Sede para uma Fábrica de Blocos | Avaré, 2016. Foto © Rafaela Netto

Apesar de desapontados com a reunião, não desistimos ou sucumbimos à incoerência de projetar a sede de um produtor de blocos com containers. Após um tempo refletindo sobre as problemáticas trazidas por eles surgiu a ideia de construir sem argamassa, ou qualquer outra substância aglutinadora, aumentando as espessuras das paredes (transformadas em verdadeiras muralhas) para que o edifício fosse estabilizado apenas pela força da gravidade.

Fizemos alguns protótipos de aparelhamentos (formas de encaixes dos blocos intercalados em sentidos diferentes para obter uma boa amarração das paredes), até chegarmos em duas configurações: 0,6m de espessura para paredes longitudinais e 1,2m para as transversais.

Processo de obra Sede para uma Fábrica de Blocos | Avaré, 2016. Foto © Vão

Processo de obra Sede para uma Fábrica de Blocos | Avaré, 2016. Foto © Vão

Desta forma a obra apresentou rápida montagem, podendo ser concluída no prazo de 30 dias, e possibilitou a reutilização de praticamente 100% do material empregado no caso de uma mudança de endereço. Apresentamos o novo projeto, eles gostaram e decidiram ir em frente nesta versão.

Se não fossem as adversidades de tempo e orçamento muito provavelmente teríamos construído um bom, porém convencional, projeto de blocos de concreto aparentes, sem a inventividade estrutural que levou a Sede para uma Fábrica de Blocos a ser um dos projetos de maior alcance do escritório. E talvez, não fosse o contato com as artes plásticas, não tivéssemos olhado para os blocos desta outra perspectiva.

RB: A obra de arte Lastro, desenvolvida para a exposição Deslocal, embora materialmente singela, mostra uma força tremenda ao explorar questões como tempo, estabilidade e desordem. Esses temas fazem parte também das discussões projetuais de arquitetura? Como?

VA: A própria palavra lastro tem vários significados. Pode ser a matéria pesada (pedras, metal ou água) levada nos porões de navios a fim de melhorar seu equilíbrio, o conjunto de sacos de areia levados por balões para compensar a perda do gás ou, na economia, o ouro que garante a circulação do papel-moeda. Tudo isso pertence ao campo interpretativo do trabalho no qual evitamos investir muito tempo justamente para não circunscrever, e consequentemente aniquilar, de antemão, as outras imagens que possam aparecer a partir dele – e que muito nos interessam.

Lastro | Exposição Deslocal, Olhão Barra Funda, 2019. Foto © Julia Thompson

Lastro | Exposição Deslocal, Olhão Barra Funda, 2019. Foto © Julia Thompson

De todo o modo, Lastro é uma instalação composta de materiais muito simples. Dois caibros de madeira inclinados são sustentados por grandes pedras de gelo, num sistema composto por caibros, roldanas e garras de vergalhões dobrados. À medida que o vento soprava e o sol derretia as pedras de gelo na cobertura da galeria Olhão, a engenhoca começava a dançar, procurando compensações para manter-se em pé.

Evidente que o trabalho tange várias questões arquitetônicas e construtivas, porém Lastro diz muito sobre uma arquitetura na qual acreditamos e que buscamos praticar, onde o valor não reside nos materiais empregados, mas na sua “performance” espacial.

Processo de montagem Lastro | Exposição Deslocal, Olhão Barra Funda, 2019. Foto © Marina Lima

Processo de montagem Lastro | Exposição Deslocal, Olhão Barra Funda, 2019. Foto © Marina Lima

Fala ainda sobre a desconstrução de um sentimento de onipotência (palavra para a qual não existe antônimo). Nós sabíamos que o sistema iria se romper em algum momento, mas o tempo que levaria fugia totalmente do nosso controle – o trabalho foi montado sem testes prévios, pouco antes da abertura da exposição de um único final de semana.

Em relação ao nosso processo projetual, isso que é visto como falha ou erro é algo que muito valorizamos, pois sem o erro não existe inventividade.

RB: É cada vez mais recorrente vermos escritórios e coletivos de arquitetura se voltarem a outras áreas sem, necessariamente, abandonar a prática projetual, mas complementando-a. Acham que essa transdisciplinaridade é um aspecto específico deste período ou enxergam isso como normalidade – ou, até mesmo, essencial – para o futuro da arquitetura?

VA: Primeiramente, é importante ressaltar que a prática projetual já é, por princípio, transdisciplinar. Os projetos espontaneamente nos requisitam estudos sobre os mais variados assuntos a todo o momento. Contudo, é muito importante sabermos distinguir o caráter holístico da arquitetura com o sentimento de onipotência do arquiteto. Para projetar é preciso praticar a humildade da hesitação.

Desde sempre, e não raro, arquitetos projetistas atuam em outras áreas, tais como o design, a pintura, a escultura, a ilustração, a escrita, entre outras – definitivamente, essa não é uma característica deste ou daquele período.

Talvez nosso tempo difira dos outros por essas atuações estarem deixando de ser “complementares”, ou seja, algo levado paralelamente ao trabalho dos escritórios de projetos, para tornarem-se matérias do próprio ofício. Algo como a diferença entre a multidisciplinariedade, onde atuações diferentes coexistem paralelamente, e a transdisciplinaridade, quando não há uma hierarquia entre as atuações e estas passam a se cruzar.

Portanto, podemos dizer com toda a convicção que a transdisciplinaridade é essencial à arquitetura, pois sua vitalidade reside na curiosidade sobre o mundo e as coisas, à mesma medida que a especialização é a sua morte.

Este artigo é parte do tópico do mês do ArchDaily: Escritórios Jovens. Todo mês, exploramos um tópico através de artigos, entrevistas, notícias e obras. Saiba mais sobre nossos tópicos aqui. Como sempre, no ArchDaily valorizamos as contribuições de nossos leitores; se você deseja enviar um artigo ou um trabalho, entre em contato conosco.

Fonte: ArchDaily

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